Educar e realizar os sonhos de filhos e alunos não é tarefa fácil, se ele for autista o desafio é maior ainda, e mais recompensador, uma professora de Belém cumpriu com muito êxito a missão de ajudar seu aluno a passar no vestibular, realizando assim o sonho dele de ser " calouro". Foram 3 vestibulares, e uma conquista enorme.

Com o apoio dos pais de Caio, e da escola, que foi muito humana e inclusiva agora ele segue para uma nova etapa.

Joana Vieira conta como foi conviver e educar um aluno autista, chamado Caio Felipe.

"A primeira vez que eu vi o Caio foi em sala de aula. Era o primeiro dia de convênio no Colégio Avante e eu seria a sua professora de redação. Vi que ele estava fora da fila indiana e pedi para pôr a carteira no lugar: “Você pode colocar a carteira na fila, por favor?!”. Ele me olhou sem graça e me chamou para perto. “Eu sou autista!”. Falou rápido ao meu ouvido. Eu olhei para a moça ao lado e ela me explicou: “Sou a acompanhante dele, professora. Ele é autista!”. Eu respirei fundo e olhei para ele sorrindo: “Quer fazer o quê no vestibular?”. “Quero ser calouro!”. “É?”. “É!”. “Então você será?”. Ele não tem a mesma reação que todo mundo mas exitou quando eu dei a mão para que ele batesse: “Bate aqui!”. E ele bateu forte. “Temos um trato. Ouviu, turma? Eu e ele temos um trato, ele será calouro!”. Todos balançaram a cabeça em sinal de positivo.

Eu não sabia lidar com alunos autistas até conhecer o Caio Felipe. Fiquei pensativa naquela tarde quando cheguei em casa. Lembrei do aluno down que tive lá em Santa Izabel e como eu consegui fazê-lo escrever e ganhar motivação. Li algumas coisas sobre autismo, Asparger, conversei com a coordenação e com a professora que o acompanhava em sala e aceitei o desafio. Primeiro, foi preciso ganhar a confiança dele. Fazê-lo gostar e confiar em mim. Essa parte até que foi fácil. Depois de uns meses ele levantava da carteira para bater na minha mão da mesma forma como fez na primeira vez. “Temos um trato!”, dizia. Eu ria e respondia: “Não esqueci, pode deixar!”. Ele é um garoto especial (especial no melhor sentido dessa palavra). Ouvia o que eu dizia com atenção e, apesar da dificuldade, foi superando os seus obstáculos. Os autistas têm aptidão a atitudes repetitivas e eu usava isso ao meu favor: “Refaz esse texto para mim que eu vou ficar muito feliz!”. Ele não se incomodava. Nunca se incomodou. “Tenta escrever mais uma vez isso aqui!”. Ele obedecida. Na segunda avaliação, a nota dele já era melhor que a de muitos alunos da sala. Eu entregava e ele vinha à mesa todo sorridente: “Temos um trato!”, batendo na minha mão. Seis meses e ele se comunicava muito bem comigo. Me chamava pelo nome e dizia que tinha refeito o texto. Oito meses e ele já alcançava nota 760. Vésperas do vestibular e ele já havia alcançado os 820.

Se inscreveu em três universidades privadas e passou em todas. Foi aprovado em Jornalismo, na Unama, Biomedicina, na Fibra e Farmácia, no Cesupa. Escolheu cursar Farmácia e está super feliz. Nos encontramos na festa dos calouros e ele me abraçou forte como quem estivesse grato. Ele não tem a mesma expressão que os outros alunos, não formula as mesmas frases e talvez não saiba dizer o que sente, mas não importa. Aquele abraço, aquele laço verde na cabeça, aquela cabeça suja de trigo e ovo, aquela plaquinha de aprovação e a palavra “calouro” escrita na bluda e na testa são a prova mais linda de que ele cumpriu o trato que fez comigo desde o primeiro dia quando nos vimos pela primeira vez. É calouro!

A família do Caio preferiu inscrevê-lo nas universidades privadas porque ele precisa de um apoio diferenciado, mas esse menino é um exemplo e eu estou muito orgulhosa do seu desempenho, da sua história. Será farmacêutico porque tem o apoio dos pais que, sobretudo, confiam e acreditam nele. Nenhum filho, autista ou não, será grande se não tiver o apoio da família. É de suma importância o acompanhamento. Amar é a melhor forma de dizer que confia. O amor vence todas as barreiras. Não neguem aos seus filhos o direito de sonhar, independente, das limitações ou qualquer outra coisa. Nossos filhos precisam se sentir amados e protegidos. Se confiarem em nós vão longe e serão capazes de ganhar o mundo. Se seu filho é autista, lute por ele também. Incentive. Persista nos seus sonhos. Faça-o acreditar. Mostre que está ao seu lado e que aposta nos seus projetos.

A vitória do Caio não é minha nem dele exclusivamente. É dos pais, da coordenação,da escola que tratou esse menino com respeito e acreditou nele junto com a família. Essa luta é também da Paula, a professora que o acompanhava nas aulas, ela foi fundamental e necessária para que chegássemos aqui. Agradeço ao Avante por ter me dado a chance de viver essa história. Parabenizo o Fábio e a Thaís que são os donos da escola por respeitarem as leis e serem humanos ao receberem alunos autistas, cadeirantes, cegos, surdos, down…dando a eles condições de superarem as dificuldades. Uma escola mais inclusiva torna o mundo mais inclusivo também. Muito obrigada por tudo, Caio!

Trato feito. Trato cumprido.

Eu te amo!"

 

Confira o post original aqui:

 

 

Essa história serve de inspiração e motivação para que a cada dia mais e mais crianças e jovens com TEA, e com qualquer outro distúrbio podem realizar seus sonhos, que eles podem conquistar seu próprio espaço e serem donos dos próprios destinos.

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