Por Anelise Cossio, Ana Paula Pereira e Rita C. Rodriguez

A partir de hoje (18) começamos uma série de textos semanais sobre os benefícios da Intervenção Precoce para famílias de crianças com TEA, a partir de uma política pública adotada em Portugal e em outros países da Europa e dos EUA. O artigo, produzido por duas de nossas professoras, doutoranda em educação especial Anelise Cossio e Rita C. Rodriquez, pós-doutora em educação especial, em parceria com a professora Ana Paula Pereira, da Universidade do Minho (Portugal), foi publicado recentemente na Revista de Educação Especial da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Para a melhor compreensão de todos os temas que envolvem a IP, ele foi transformado em vários textos que se se intercalam entre si. A cada semana, traremos mais tópicos sobre essa importante temática ainda pouco tratada no Brasil. 

De acordo com a última versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM – 5), o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) caracteriza-se por uma díade de déficits qualitativos, nomeadamente, na área da comunicação social e nos padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades (APA, 2014). Estas dificuldades podem ser minimizadas quando é realizada a detecção precoce, oportunizando benefícios que permitem diminuir os desafios complexos associados a este quadro, devendo-se para tal utilizar avaliações interdisciplinares ou transdisciplinares e programas individualizados, que sejam transversais a todos os contextos (DUNST; BRUDER; ESPE-SHERWINDT, 2014; REIS; PEREIRA; ALMEIDA, 2014).

Quanto mais cedo iniciar a Intervenção Precoce (IP) na TEA, maiores serão as possibilidades da criança se desenvolver, sendo necessário que esse apoio coloque o enfoque no desenvolvimento, no contexto e se sustente nas práticas centradas na família (CARDOSO; FRANÇOSO, 2015). A IP segue uma lógica de prestação de apoio ao invés de uma prestação de serviços, em que contribui para a qualidade de vida e o fortalecimento das famílias.

Caracteriza-se por contribuir e incrementar oportunidades de experiências e aprendizagens nos contextos naturais dos bebês e crianças até o Pré-Escolar (0 a 6 anos), que apresentem alterações nas estruturas ou funções do corpo ou alto risco de atraso de desenvolvimento. Estas oportunidades são, sobretudo, proporcionadas pelos seus prestadores de cuidados, no dia-a-dia, e promovem a aquisição e competência comportamentais e de desenvolvimento das crianças, ao mesmo tempo em que promove a competência e confiança nos adultos significativos para a criança (DUNST, 2012; DUNST, et al, 2010; EUROPEAN AGENCY FOR DEVELOPMENT IN SPECIAL NEEDS EDUCATION, 2005).

As práticas sugeridas pela investigação apontam que o apoio na IP deve ser centrado na família, ecológico e transdisciplinar para que os resultados sejam mais qualificados para as famílias apoiadas, incentivando-as a tomarem decisões e a participar de modo mais eficaz e colaborativo (DEC, 2014).

A abordagem das práticas centradas na família entende que os profissionais devem trabalhar em conjunto com as famílias para criar objetivos, desenvolver planos individualizados e implementar práticas que abordem as preocupações e prioridades de cada uma. Simultaneamente, esta abordagem reforça a importância do funcionamento da família, de forma a promover o desenvolvimento das suas competências, reconhecendo e aproveitando seus pontos fortes e capacidades (DEC, 2014).

A implementação da abordagem centrada na família incute, assim, novos papéis e novas responsabilidades e integra os múltiplos saberes dos diferentes elementos envolvidos em todo o processo de apoio da IP. Cria igualmente um sentido de pertença e de compromisso entre a família e os profissionais (DUNST; TRIVETTE, 2009).

Na perspectiva ecológica, entende-se que a criança influencia e é influenciada pelo meio, ou seja, o seu desenvolvimento é compreendido por um modelo unificado que abarca seus processos biológicos e psicológicos (sistema biopsicossocial), os quais interagem com outros sistemas reguladores que correspondem os contextos em que está inserida (escola, comunidade, vizinhança e questões geopolíticas) (SAMEROFF, 2010).

Segundo a concepção ecológica, as experiências do indivíduo são perspectivadas como subsistemas que permitem localizar no espaço e no tempo os vários cenários e contextos naturais de vida da criança. O conceito de contexto natural de aprendizagem refere-se às atividades que surgem no quotidiano da família e da comunidade e que se constituem como fontes de oportunidades relevantes e significativas para o desenvolvimento e para a aprendizagem da criança (DUNST, et al., 2012).

Estes contextos têm efeitos diretos e indiretos na vida da criança e as suas experiências de vida trazem consigo valores, crenças, apoios, recursos e vivências as quais influenciam o seu desenvolvimento. Algumas destas experiências afetam de forma mais direta do que outras por estar mais tempo presente com a criança, como é o caso dos cuidadores naturais. Outras, ao contrário, influenciam de maneira indireta, como os profissionais de IP, por terem menos oportunidades de tempo despendido com a criança.

Desta forma, compreender a ecologia da família é fundamental para que a IP se adeque às vidas das famílias e as apoie de forma eficaz (JUNG, 2012). A Division for Early Childhod (DEC, 2014) recomenda um conjunto de práticas e de princípios que integram e fundamentam a perspectiva ecológica, nomeadamente que os profissionais de IP:

a) prestem apoio em ambientes naturais da criança e sua família, nos momentos de rotina diários, para promover a participação da criança em experiências de aprendizagem culturalmente significativas;

b) sensibilizem a família e os outros cuidadores da criança para a necessidade de modificar e de adaptar fisicamente (espaço, equipamentos, materiais), socialmente (interações com colegas, membros da família, entre outros) e temporalmente (sequência, duração dos momentos de rotina e atividades) os contextos/ as rotinas diárias para criar oportunidades e promover o acesso e a participação da criança em experiências de aprendizagem;

c) tornem, em conjunto com a família, os contextos acessíveis e promotores de desenvolvimento e aprendizagem à criança.

Na próxima semana falaremos sobre outras práticas dentro da IP, como, por exemplo, a importância da equipe multidisciplinar. 

Anelise Cossio é doutoranda em Estudos da Criança, área de Especialidade em Educação Especial pela Universidade do Minho, Braga, Portugal.

Ana Paula Pereira é Investigadora efetiva do Centro de Investigação em Educação (CIEd), do Instituto de Educação da Universidade do Minho, Braga, Portugal.

Rita C. Rodriguez é professora doutora da Universidade Federal de Pelotas, Instituto de Biologia, Rio Grande do Sul, Brasil.

GOSTOU? Compartilhe com seus amigos

Faça parte da próxima turma

Chat

Deixe seu comentário

comentários

https://pay.hotmart.com/S6134333V?checkoutMode=2

Deixe seu comentário

comentários